Sistema Solar, 85 ER.
Publicado pelo S.A.C.


PERFIS PSICOLÓGICOS WORMS

 

Estudo de Glodir Goddard Jr* 

Encomendado pela Associação Circunlunar de Amparo à Adaptação do Terrestre


[...] Worms² são os únicos cidadãos do Espaço Humano que não deixam seus mundos natais com freqüência. Em pesquisa recente, essa crença quanto ao sedentarismo worm se viu confirmada quando se apurou que mais de 90% dos selenitas nunca empreenderam uma viagem interestelar. Ou seja, em pleno século II E.R., um percentual significativo da população do Espaço Humano jamais mergulhou num ponto de ingresso ou visitou sistema estelar diverso daquele onde nasceu. Sem dúvida, uma constatação preocupante do ponto de vista dos sociólogos spacers. Na realidade, o worm típico não vê com entusiasmo a perspectiva de abandonar seu mundo natal, independente do quão grave e relevante seja o motivo da viagem. De modo geral, os worms mantêm seus núcleos residenciais e instalações industriais dezenas de metros abaixo das superfícies de seus mundos áridos. [...]


[...] Desde o início da Diáspora Solar, as comunidades worms selenitas se especializaram na concepção e no desenvolvimento das inteligências artificiais autoconscientes. No presente, Luna produz e comercializa as C.A. e I.A.A. mais sofisticadas do Espaço Humano, a ponto das corporações selenitas exercerem virtual monopólio neste importante setor da economia do Consortium. Em função de sua grande estabilidade política e econômica, sua situação privilegiada no interior do sistema Terra-Lua e seu papel histórico relevante no apoio inicial à instalação de numerosas comunidades orbitais no espaço circunlunar, Luna adquiriu sólida reputação de mercado de investimentos seguro. [...]


[...] Em virtude da sua longa experiência em projetos de terraformização, os selenitas e outras subestirpes worms se tornaram os grandes especialistas do Espaço Humano em ecologia e engenharia ambiental; disciplinas nas quais adquiriram índices de proficiência elevados ao desenvolverem seus imensos parques ecológicos temáticos, nos quais recriaram ecossistemas da Velha Terra em seus vastos complexos de cavernas sublunares. Desde a época da Diáspora Estelar, corporações selenitas vencem quase todas as grandes concorrências para implantar biosferas estanques em habitats spacers e asteróides escavados belters. Desenvolvimentos como os parques ecológicos e as biosferas estanques foram fundamentais para concretizar o sonho dos megaprojetos de terraformização de âmbito planetário.[...]

 



¹Glodir Goddard Jr. foi o primeiro ressurrecto a ser admitido nos quadros da Seção de Análises Comportamentais do Consortium (S.A.C). Escritor de história alternativa na Terra, especializa-se em previsão comportamental de ressurrectos.



²
Originalmente, os termos “minhoca” e “worm” possuíam conotações pejorativas moderadas, sendo empregados amiúde pelos spacers quando se referiam aos cidadãos residentes em qualquer superfície planetária. Mais tarde, com o advento da Restrição, época em que as sociedades spacer, belter e selenita começaram a observar que possuíam muito em comum entre si, quando comparadas tanto aos migrantes da Terra quanto, mais tarde, aos ressurrectos, os termos “worms” e “minhocas” começaram a ser aplicados exclusivamente em relação aos selenitas. Compreensivelmente, esses dois termos perderam boa parte da conotação insultuosa original, sendo de aplicação perfeitamente aceitável, desde que em ambientes informais, frise-se bem. Para se referir aos ressurrectos, spacers e belters recuperaram as expressões ofensivas arcaicas “bichos-da-terra” e “earthworms”, que em épocas anteriores à Restrição eram de emprego genérico, embora suas conotações ultrajantes estivessem limitadas quase sempre aos cidadãos da Terra. Conquanto as expressões “bichos-da-terra” e “earthworms” sejam de uso corrente, não custa enfatizar seu caráter ofensivo. São expressões que pessoas que se consideram civilizadas não costumam empregar em voz alta. Ao menos, não em voz muito alta...