| Sistema Solar, 85 ER. | Publicado pelo S.A.C. |
[...] De modo geral, o spacer típico não se interessa por superfícies planetárias. Nem mesmo para visitas rápidas e esporádicas. Porque associa a imersão num poço gravitacional com dependência e escravidão aos velhos preceitos viciados do passado terrestre. Residir num planeta, então, é absolutamente inconcebível para qualquer spacer que se preze². Não fossem quase todos os spacers agnósticos, seus pesadelos de inferno estariam decerto associados à vida eterna na Terra ou em Marte. O conceito spacer de “danação eterna”. [...]
[...] Oculto no inconsciente social da cultura spacer (mas não nos segmentos belter e worm) há o temor velado de que, uma vez relaxados os controles demográficos e tolerado o crescimento populacional, sobretudo em superfícies planetárias, acabe surgindo mais cedo ou mais tarde uma sociedade planetária poderosa o bastante para rivalizar política e economicamente com os spacers, disputando-lhes a supremacia dentro e, pior ainda, fora do Consortium. É justo por causa desse temor, que os spacers tentam coibir a todo custo o desenvolvimento de uma nova “Metrópole Terra”, com seus propósitos obscurantista, centralizadores e autoritários.[...]
[...] Assumir a meritocracia radical por princípio filosófico e estilo de vida pode trazer alguns dissabores inusitados à vida do spacer médio, como, por exemplo, quando esse spacer sente-se compelido a escolher um desafeto pessoal para um cargo político ou técnico muito importante, pelo fato desse desafeto constituir a pessoa mais adequada para a posição, dentre os candidatos disponíveis. É o tipo de coisa que, segundo os belters, “só um spacer faria” [...]
[...] A estética clean dos spacers não se limita ao vestuário até certo ponto despojado e ao design estritamente funcional de suas naves estelares. Ao contrário. Esses princípios estéticos acompanham o cidadão spacer do século II E.R., tanto dentro de seus aposentos pessoais, quanto no interior de seu espaço de trabalho. Desta forma, todas as peças de mobiliário e até mesmo os itens de decoração assumem sempre que possível existência meramente virtual. Quando a virtualidade absoluta não é de todo possível — como no caso de leitos, mesas e poltronas — essas peças permanecem ocultas em nichos escamoteados no piso ou nas anteparas do compartimento, de onde só deverão emergir quando se tornarem necessário. [...]